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terça-feira, 24 de julho de 2012

SILÊNCIO AMOROSO 2 - Affonso Romano de Sant'Anna


Preciso do teu silêncio 
                              cúmplice
sobre minhas falhas.
                           Não fale.
Um sopro, a menor vogal
pode me desamparar.
E se eu abrir a boca
minha alma vai rachar.

O silêncio, aprendo,
pode construir. É modo
denso/tenso
               - de coexistir.
Calar, às vezes,
é fina forma de amar.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

BALADA DOS CASAIS - Affonso Romano de Sant'Anna



Os casais são tão iguais,
por isto se casam
e anunciam nos jornais.

Os casais são tão iguais,
por isto se beijam
fazem filhos, se separam
prometendo
não se casarem jamais.

Os casais são tão iguais,
que além de trocar fraldas,
tirar fotos, acabam se tornando
avós e pais.

Os casais são tão iguais,
que se amam e se insultam
e se matam na realidade
e nos filmes policiais.

Os casais são tão iguais,
que embora jurem ao outro
amor eterno
sempre querem mais.

terça-feira, 18 de maio de 2010

LUAR NA TOSCANA - Affonso Romano de Sant'Anna


A mim me tocou uma lua cheia em São Geminiano.

O que mais pode querer a alma de um homem
amado por uns, por outros detestado,
que segue os pássaros com os olhos
que deixa fluir com os rios o seu desejo
e tem no bolso uns quatro ou cinco segredos?

A mim me tocou, de novo, a lua cheia
e foi em Certaldo Alto.
Recebi-a calado.
E como era por demais extasiante
depositei-a
            - nos olhos de minha amante.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

O DUPLO - Affonso Romano de Sant'Anna


Debaixo de minha mesa
tem sempre um cão faminto que me alimenta a tristeza.


Debaixo de minha cama
tem sempre um fantasma vivo
     - que perturba quem me ama.


Debaixo de minha pele
alguém me olha esquisito
     - pensando que eu sou ele.


Debaixo de minha escrita
há sangue em lugar de tinta
     - e alguém calado que grita.

   * Imagem: O escritor, escultura gigante do italiano Giancarlo Neri.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

CILADA VERBAL - Affonso Romano de Sant'Anna


Há vários modos de
matar um homem:
com o tiro, a fome
a espada
ou com a palavra
- envenenada.
Não é preciso força.
Basta que a boca solte
a frase engatilhada
e o outro morre
- na sintaxe da
emboscada.