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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

POEMA CIRCENSE - José Paulo Paes


Atirei meu coração às areias do circo como se atira ao mar uma
âncora aflita. Ninguém bateu palmas. O trapezista sorriu,
o leão farejou-me desdenhosamente, o palhaço zombou
de minha sombra fatídica.

Só a pequena bailarina compreendeu. Em suas mãos de opala,
meu coração refletia as nuvens de outono, os jogos de
infância, as vozes populares.

Depois de muitas quedas, aprendi. Sei agora vestir, com
razoável destreza, os risos da hiena, a frágil polidez dos
dos elefantes, a elegância marinha dos corcéis.

Todavia, quando as luzes se apagam, readquiro antigos poderes
e voo. Voo para um mundo sem espelhos falsos, onde o sol
devolve a cada coisa a sombra natural e onde não há aplausos,
porque tudo é justo, porque tudo é bom.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

OUTRO RETRATO - José Paulo Paes


O laço de fita
que prende os cabelos
da moça do retrato
mais parece uma borboleta.

Um ventinho qualquer
e sai voando
rumo a outra vida
além do retrato.

Uma vida onde os maridos
nunca chegam tarde
com um gosto amargo
na boca.

                                                                         * Imagem: Abigail, de Di Cavalcanti.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

LISBOA: AVENTURAS - José Paulo Paes

tomei um expresso
cheguei de foguete
subi num bonde
desci de um elétrico
pedi um cafezinho
serviram-me uma bica
quis comprar meias
só vendiam peúgas
fui dar a descarga
disparei um autoclisma
gritei "ó cara!"
respondeu-me "ó pá!"
positivamente
as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá