Mostrando postagens com marcador Lygia Fagundes Telles. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Lygia Fagundes Telles. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 24 de julho de 2012

28 DE DEZEMBRO - Lygia Fagundes Telles


   Encontro com F. na livraria. Estranhou o título que vou dar a este livro, mas por que disciplina do amor? O amor lá tem disciplina? perguntou e deu a resposta: amor disciplinado nunca foi amor, pode ser método, arrumação no sentido de se botar tudo direitinho, cálculo, mas amor?! Pois amor não era ilogicidade? Transgressão?
   Digo-lhe que a indisciplina está só na aparência, na superfície. Na casca. Porque lá nas profundezas o amor é de uma ordem e de uma harmonia só comparável à abóbada celeste.
   Ele ficou me olhando. Arqueou as sobrancelhas surpreendido: "Mas então só conheci o amor superficial? Cada vez que amei  foi tanta a insatisfação e a insegurança. Fico em total desordem!"
   Desejei-lhe um amor verdadeiro e ele riu, desafiante. Quis saber se por acaso eu tinha atingido no amor essa plenitude celestial. Não respondi. Falamos sobre política, livros. Mas quando saí da livraria, me vi Adão  sendo expulso do Paraíso, o semblante descaído e o olhar no chão.


* Imagem: Heartfelt, de Nathan Sawaya, artista americano.

domingo, 12 de junho de 2011

15 DE SETEMBRO - Lygia Fagundes Telles


   Se a vida estiver lá fora, nessas vozes que desdenhei? E se o desvio da minha rota foi exatamente esse que escolhi? Mas haverá ainda tempo?
   Fico olhando o besourinho lustroso, de pintas vermelhas no verde-esmeralda das asas. Atravessa minha mesa num andar enérgico, decidido - de onde veio e para onde vai? Toco-o com a ponta do dedo e imediatamente ele se imobiliza dentro da pequena carapaça, se faz de morto. Sua tática de defesa me emociona, também me fiz de morta tantas vezes. Tenho vontade de colher o besourinho na palma da mão e levá-lo até os potes de samambaia, não seria mais feliz lá? Fico vacilante, o que é  bem para mim pode ser o mal para ele. A ambiguidade do Bem. Afasto-me para que ele não se sinta tolhido, quero-o livre. Observo de longe a bolinha verde-esmeralda que ressuscita e retoma sua marcha. Retomo a minha.

       (Do livro A disciplina do amor)

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O JARDINEIRO - Lygia Fagundes Telles

Só colhia as rosas ao anoitecer porque durante o sono elas sentiam o aço frio da tesoura. Uma noite ele sonhou que cortava as hastes de manhã, em pleno sol, as rosas despertas e gritando e sangrando na altura do corte das cabeças decepadas. Quando ele acordou, viu que estava com as mãos sujas de sangue.