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domingo, 9 de setembro de 2012

Um poema de Pablo Neruda


Já não se encantarão os meus olhos nos teus olhos,
já não se adoçará junto a ti a minha dor.

Mas para onde vá levarei o teu olhar
e para onde caminhes levarás a minha dor.

Fui teu, foste minha. O que mais? Juntos fizemos
uma curva na rota por onde o amor passou.

Fui teu, foste minha. Tu serás daquele que te ame,
daquele que corte na tua chácara o que semeei eu.

Vou-me embora. Estou triste: mas sempre estou triste.
Venho dos teus braços. Não sei para onde vou.

... Do teu coração me diz adeus uma criança.

E eu lhe digo adeus. 




*Imagem: Unbalanced, de Karl Kwasny.



domingo, 12 de junho de 2011

SONETO XLV - Pablo Neruda


Não estejas longe de mim um só dia, porque como,
porque, não sei dizê-lo, é comprido o dia,
e te estarei esperando como nas estações
quando em alguma parte dormitaram os trens.

Não te vás por uma hora porque então
nessa hora se juntam as gotas do desvelo
e talvez toda a fumaça que anda buscando casa
venha matar ainda meu coração perdido.

Ai que não se quebrante tua silhueta na areia,
ai que não voem tuas pálpebras na ausência:
não te vás por um minuto, bem-amada,

porque nesse minuto terás ido tão longe
que eu cruzarei toda a terra perguntando
se voltarás ou se me deixarás morrendo.

         (Do livro Cem Sonetos de Amor)

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

De O LIVRO DAS PERGUNTAS - Pablo Neruda

Me diga: a rosa está nua
ou só tem esse vestido?


É verdade que a esperança
se deve regar com orvalho?


Quantas abelhas tem o dia?


O que é que irrita os vulcões
que cospem fogo, frio e fúria?


Quantas perguntas tem um gato?


Como chamar esse coquetel
que mistura vodca com relâmpagos?


É verdade que voa de noite
sobre minha pátria um condor negro?


Quem canta no fundo da água
na lagoa abandonada?


Não te enganou a primavera
com beijos que não floresceram?


Que dirão de minha poesia
os que não tocaram meu sangue?