A borboleta pousadaou é Deusou é nada.
Mania de ler linhas e entrelinhas. Mural de textos em PROSA & VERSO, especialmente dedicado aos amantes da leitura.
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terça-feira, 24 de julho de 2012
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
A ESFINGE - Adélia Prado
Ofélia tem os cabelos tão pretos
como quando casou.
Teve nove filhos, sendo que
tirante um que é homossexual
e outro que mexe com drogas,
os outros vão levando no normal.
Só mudou o penteado e botou dentes.
Não perdeu a cintura, nem
aquele ar de ainda serei feliz,
inocente e malvada
na mesma medida que eu,
que insisto em entender
a vida de Ofélia e a minha.
Ainda hoje passou de calça comprida
a caminho da cidade.
Os manacás cheiravam
como se o mundo não fosse o que é.
Ora, direis. Ora, digo eu. Ora, ora.
Não quero contar histórias,
porque história é excremento do tempo.
Queria dizer-lhes é que somos eternos,
eu, Ofélia e os manacás.
* Imagem: Obra Manacá, de Tarsila do Amaral.
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
VEROSSÍMIL - Adélia Prado
Antigamente, em maio, eu virava anjo.A mãe me punha o vestido, as asas,me encalcava a coroa na cabeça e encomendava:'Canta alto, espevita as palavras bem'.Eu levantava voo rua acima.
terça-feira, 12 de julho de 2011
A MEIO PAU - Adélia Prado
Queria mais um amor. Escrevi cartas,remeti pelo correio a copa de uma árvore,pardais comendo no pé um mamão maduro- coisas que não dou a qualquer pessoa -e mais que tudo, taquicardias,um jeito de pensar com a boca fechada,os olhos tramando um gosto.Em vão.Meu bem não leu, não escreveu,não disse essa boca é minha.Outro dia perguntei a meu coração:o que há durão, mal de chagas te comeu?Não, ele disse: é desprezo de amor.
(Do livro Bagagem)
sexta-feira, 13 de maio de 2011
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
AMOR FEINHO - Adélia Prado
Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado, é igual fé,
não teologa mais.
Duro de forte, o amor feinho
é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo o que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial;
o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero amor feinho.
Imagem: Imotion Imagens
domingo, 19 de setembro de 2010
DONA DOIDA - Adélia Prado
Uma vez, quando eu era menina, choveu grosso
com trovoadas e clarões, exatamente como chove agora.
Quando se pôde abrir as janelas,
as poças tremiam com os últimos pingos.
Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema,
decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos.
Fui buscar os chuchus e estou voltando agora,
trinta anos depois. Não encontrei minha mãe.
A mulher que me abriu a porta, riu de dona tão velha,
com sombrinha infantil e coxas à mostra.
Meus filhos me repudiaram envergonhados,
meu marido ficou triste até a morte,
eu fiquei doida no encalço.
Só melhoro quando chove.
(Do livro Poesia Reunida)
domingo, 25 de outubro de 2009
ANTES DO NOME - Adélia Prado
Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o "do", o "aliás", o "o", o "porém" e o "que", esta incompreensível
muleta que me apoia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo filho é o Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infrequentíssimos, se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror.
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