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segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Um texto de Gibran Khalil Gibran


   Ó Jesus, que está sentado em meio à luz celestial, olha para esta terra que ontem visitaste. Olha! Os espinheiros sufocaram os ramalhestes de flores que ontem regaste com o suor de Tua fronte. Olha, ó bom pastor: as garras dos lobos rasgaram o corpo do cordeiro frágil que carregaste no colo. Teu sangue generoso se evaporou da terra. Tuas lágrimas secaram nos olhos dos homens. Os gritos dos oprimidos se elevam das extremidades destas trevas, mas não chegam aos que ocupam os tronos em Teu nome. E os lamentos dos desesperados não penetram o ouvido dos que em Teu nome pregam dos púlpitos. Pois as ovelhas que enviaste para suavizar a vida viraram feras. E a palavra de luz que trouxeste do coração de Deus desapareceu no meio de tantos livros; e levantou-se, no seu lugar, um alarido que abala as almas.
   Edificaram igrejas para glorificar seus próprios nomes e cobriram as paredes com seda e ouro, enquanto deixavam nus os corpos de Teus eleitos, os pobres. Encheram o espaço com o perfume do incenso e a luz das lâmpadas, mas abandonaram os que creem em Ti. Sobrecarregaram o vento com cânticos e salmos, mas permanecem surdos ao apelo dos órfãos. Volta, ó Jesus imortal, e expulsa  dos Teus templos, os vendedores de religião. Vem pedir contas a esses novos césares, que extorquiram do povo o que lhe pertence e o que pertence a Deus. Os que encarregaste de implantar a paz dividiram-se entre si e brigaram; e as vítimas são nossas almas desamparadas e nossos corações esmagados...
   Nas suas festas e celebrações têm a audácia de levantar a voz e dizer: "Glória a Deus nas alturas e paz e alegria na terra aos homens de boa vontade." Mas glorifica-se Teu pai com palavras pronunciadas por línguas insinceras? Haverá paz na terra enquanto os oprimidos se esgotam para alimentar os opressores? E haverá alegria enquanto os deserdados consideram a morte como uma salvação?


* Da obra As Ninfas do Vale.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

AS SONÂMBULAS - Gibran Khalil Gibran


   Na cidade onde nasci, viviam uma mulher e sua filha; e ambas eram sonâmbulas.
   Uma noite, quando o silêncio envolvia o mundo, a mulher e a filha, caminhando a dormir, encontraram-se no seu jardim, meio velado pela neblina.
   E a mãe falou: "Por fim, minha inimiga! Aquela  por quem minha juventude foi destroçada, que construiu sua vida sobre as ruínas da minha! Pudesse eu matá-la."
   E a filha falou: "Ó odiosa mulher, velha e egoísta, que se antepõe entre mim e meu Eu livre! Que gostaria de fazer de minha vida um eco de sua vida fanada! Quem dera estivesses morta!"
   Nesse momento, um galo cantou, e ambas as mulheres acordaram. A mãe perguntou ternamente: "És tu, querida?" E a filha respondeu ternamente: "Sim, querida."

(Do livro Parábolas)

* Imagem: Obra de Paul Devaux.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Um texto de Gibran Khalil Gibran


   A Páscoa chegou. Melhor do que os sinos, as multidões alegres a anunciam. Sozinho e melancólico, afasto-me da multidão.
   No parque deserto, um homem, também sozinho, parecia estar à minha espera. Sentou-se a meu lado e começou a desenhar na areia figuras misteriosas. Suas vestes eram modestas, mas dele emanava uma grandeza inexprimível.
   - O senhor é talvez um estrangeiro nesta cidade? perguntei-lhe com simpatia.
   -Eu sou um estrangeiro nesta cidade e em qualquer outra cidade.
   - Mas nestes dias festivos, o estrangeiro esquece a amargura do exílio e se deixa consolar pela afeição dos corações abertos.
   - Eu sou um estrangeiro nestes dias mais ainda do que nos outros.
   E dirigiu ao céu cinzento um olhar sonhador como se estivesse procurando no além uma pátria desconhecida.
   Observei-o novamente, e disse:
   - Parece que o senhor está em necessidade. Não aceitaria minha ajuda?
   - Sim, respondeu com tristeza, estou em necessidade, mas não preciso de dinheiro.
   - E de que precisa?
   - Preciso de um abrigo. Preciso de u lugar onde descansar a cabeça.
   - Mas já que lhe estou dando dinheiro, poderá alojar-se num hotel.
   - Já fui a todos os hotéis: ninguém me aceitou. Já bati a todas as portas sem encontrar um amigo.
   - Venha então comigo. Passarás a noite em minha casa.
   - Mil vezes já bati à tua porta, mas nunca me abriste. E agora, se soubesses quem sou, não me convidarias.
   - E quem é o senhor?
   - Eu sou a Revolução que derruba o que os séculos estabeleceram. Sou o furacão que arranca as raízes dessecadas. Sou aquele que traz ao mundo a justiça e não a piedade.
   Depois, estendeu os braços; e vi nas suas mãos traços de pregos.
   Joguei-me aos seus pés, balbuciando:
   - Jesus, o Nazareno!...
   E ouvi-o dizer:
   - O mundo celebra meu nome e as tradições que os séculos teceram em volta de meu nome. Mas eu permaneço um estrangeiro, percorrendo o universo e atravessando os séculos sem encontrar quem compreenda minha verdade.
   Quando ergui os olhos, nada mais vi senão uma coluna de incenso. E ouvi um eco de trovoada vindo da eternidade.

* (Do livro Temporais)

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Três momentos de GIBRAN KHALIL GIBRAN


   Vã é a civilização. E tudo que está nela é vão. As descobertas e invenções nada são senão brinquedos com que a mente se diverte no seu tédio. Cortar as distâncias, nivelar as montanhas, vencer os mares, tudo isto não passa de aparências enganadoras, que não alimentam o coração nem elevam a alma. Quanto a esses quebra-cabeças, chamados ciências e artes, nada são senão cadeias douradas com as quais o homem se acorrenta, deslumbrado com seu brilho e seu tilintar... São os fios da teia que o homem tece desde o início do tempo sem saber que, quando terminar a obra, terá construído a prisão dentro da qual ficará preso. (Em Temporais)

***

   Um dia, disse o Olho: Vejo, além destes vales, uma montanha velada pela cerração azul. Não é bela?
   O Ouvido pôs-se à escuta e, depois de ter escutado atentamente algum tempo, disse: Mas onde há qualquer montanha? Não a ouço.
   Então, a Mão falou: Estou tentando em vão sentí-la ou tocá-la, enão encontro montanha alguma.
   E o Nariz disse: Não há nenhuma montanha. Não lhe sinto o cheiro.
   Então, o Olho voltou-se para outra parte; e todos começaram a conversar sobre a estranha alucinação do Olho. E diziam: Há qualquer coisa errada com o olho. (Em O Louco)

***
    Dizem-me: Se encontrares um escravo adormecido, não o acordes: talvez esteja sonhando com a liberdade.
   Respondo: Se encontrar um escravo adormecido, acordo-o e falo-lhe da liberdade. (Em Curiosidades e Belezas)


  

segunda-feira, 5 de julho de 2010

POETAS - Gibran Khalil Gibran


   Quatro poetas estavam sentados em volta de uma jarra de vinho que se achava numa mesa.
   Disse o primeiro poeta:
   - Parece-me ver, com meu terceiro olho, a fragrância deste vinho pairando no espaço como uma nuvem de pássaros numa floresta encantada.
   O segundo poeta ergueu a cabeça e disse: 
   - Com meu ouvido interno, posso ouvir esses pássaros de névoa cantando. E a melodia prende-me o coração como a rosa branca aprisiona a abelha dentro de suas pétalas.
   O terceiro poeta fechou os olhos e estendeu o braço para o alto, e disse:
   - Toco-o com minha mão. Sinto-lhe as asas, tal como o respirar de uma fada adormecida, roçarem nos meus dedos.
   Então, o quarto poeta levantou-se e ergueu a jarra, e disse:
   - Ai de mim, amigos! Sou muito obtuso de vista e de ouvido e de tato. Não posso ver a fragrância deste vinho, nem ouvir sua canção, nem sentir o bater de suas asas. Só percebo o próprio vinho.
   E, levando o jarro aos lábios, bebeu o vinho até a última gota. Os três poetas, com as bocas abertas, olharam-no, estupefatos, e havia em seus olhos um ódio sedento, nada lírico.

   (Do livro Parábolas - tradução e apresentação: Mansour Challita)

*Imagem: obra do pintor francês Louis Le Nain