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sábado, 22 de setembro de 2012

O VENTO - Mário Quintana


   O único da casa que enxerga o vento é o cachorro. Detém-se à porta da cozinha, rosnando para o pátio ventado, cheio de latas inquietas e papéis decididamente malucos.
   E nos seus olhos fixos e rancorosos vê-se o desvario do vento, a incurabilidade do vento, os seus cabelos em corrupio, os seus braços que parecem mil, os seus trapos flutuantes de espantalho, toda aquela agitação sem causa e que é ainda menos instável, no entretanto, que a terrível desordem de sua cabeça: pois o vento nunca pode assentar suas ideias...

sábado, 26 de novembro de 2011

Diário poético de Mário Quintana



A hortênsia é uma couve-flor pintada de azul.
*
Haverá ainda, no mundo, coisas tão simples e tão puras como a água bebida na concha das mãos?
*
Qualquer ideia que te agrade, é tua. O autor nada mais fez que vestir a verdade que dentro de ti se achava nua...
*
Há noites em que não posso dormir de remorso por tudo o que deixei de cometer...
*
Que triste os caminhos se não fora a mágica presença das estrelas!
*
Leon Tolstoi fugiu de casa aos 80 anos. Não são todos os que podem realizar os grandes sonhos da infância!
*
Às vezes o túnel do sono é iluminado apenas pelos olhos verdes dos fantasmas.
*
Tudo o que acontece é natural. Inclusive o sobrenatural...
 *
Depois de cada ilusão perdida, que estraordinária sensação de alívio!
 *
Durante as belas noites de tempestade os relâmpagos tiram radiografias da paisagem.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

O LEITOR IDEAL - Mário Quintana


O leitor ideal para o cronista seria aquele a quem bastasse uma frase.
Uma frase? Que digo? Uma palavra!
O cronista escolheria a palavra do dia: "Árvore", por exemplo, ou "Menina".
Escreveria essa palavra bem no meio da página, com espaço em branco para todos os lados, como um campo aberto para os devaneios do leitor.
Imaginem só uma meninazinha solta no meio da página.
Sem mais nada.
Até sem nome.
Sem cor de vestido nem de olhos.
Sem se saber para onde ia...
Que mundo de sugestões e de poesia para o leitor.
E que cúmulo de arte a crônica! Pois bem sabeis que arte é sugestão...
E se o leitor nada conseguisse tirar dessa obra-prima, poderia o autor alegar, cavilosamente, que a culpa não era do cronista.
Mas nem tudo estaria perdido para esse hipotético leitor fracassado, porque ele teria sempre à sua disposição, na página, um considerável espaço em branco para tomar seus apontamentos, fazer os seus cálculos ou a sua fezinha...
Em todo caso, eu lhe dou de presente, hoje, a palavra "Ventania". Serve?

terça-feira, 26 de julho de 2011

EMERGÊNCIA - Mário Quintana


Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
por isso é que os poemas têm ritmo
- para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

O TEMPO E O VENTO - Mário Quintana


Havia uma escada que parava de repente no ar
Havia uma porta que dava para não se sabia o quê
Havia um relógio onde a morte tricotava o tempo

Mas havia um arroio correndo entre os dedos buliçosos dos pés
E pássaros pousados na pauta dos fios do telégrafo

E o vento!

O vento que vinha desde o princípio do mundo
Estava brincando com teus cabelos...

* Imagem: O vento, de V. Kush.

terça-feira, 29 de março de 2011

PALAVRAS - Mário Quintana


I
   Há palavras verdadeiramente mágicas. O que há de mais assustador nos monstros é a palavra "monstro". Se eles se chamassem leques ou ventarolas, ou outro nome assim, todo arejado de vogais, quase tudo se perderia do fascinante horror de Frankenstein...
II
   Mas há palavras infelizes. "Umbigo", por exemplo. Um dia Álvaro Moreyra me disse que umbigo era a palavra mais engraçada da língua portuguesa. Engraçada, não! Triste é que é. Por culpa sua, como jamais poderemos cantar o umbigo da bem-amada? Eis aí um encanto para sempre oculto...
III
   Em compensação, temos a palavra "voluptuosidade", tão sinuosa, tão espreguiçada, tão ela mesma... Por sinal que, como a suspeitasse de galicismo, propôs o clérigo Bluteau, já no século XVIII, substituí-la por "voluptade" - o que bem evidencia as castas virtudes do saudoso frade.
IV
   E não sei ao certo quem era ela, nem o que ela fez, mas tenho a certeza de que Dona Urraca foi uma das princesas mais infelizes do mundo...

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

sexta-feira, 30 de julho de 2010

A poesia de Mário Quintana


Confessional

   Eu fui um menino por trás de uma vidraça - um menino de aquário.
   Via o mundo passar como numa tela cinematográfica, mas que repetia sempre as mesmas cenas, as mesmas personagens.
   Tudo tão chato que o desenrolar da rua acabava me parecendo apenas em preto e branco, como nos filmes daquele tempo.
   O colorido todo se refugiava, então, nas ilustrações dos meus livros de histórias, com seus reis hieráticos e belos como os das cartas de jogar.
   E suas filhas nas torres altas - inacessíveis princesas.
   Com seus cavalos - uns verdadeiros príncipes na elegância e na riqueza dos jaezes.
   Seus bravos pajens (eu queria ser um deles...)
   Porém, sobrevivi...
   E aqui, do lado e fora, neste mundo em que vivo, como tudo é diferente! Tudo, ó menino do aquário, é muito diferente do teu sonho...
   (Só os cavalos conservam a natural nobreza.)

Canção do Amor Imprevisto

Eu sou um homem fechado.
O mundo me tornou egoísta e mau.
E a minha poesia é um vício triste,
Desesperado e solitário
Que eu faço tudo por abafar.

Mas tu apareceste com a tua boca fresca de madrugada,
Com o teu passo leve,
Com esses teus cabelos...

E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender nada, numa alegria atônita...
A súbita, a dolorosa alegria de um espetáculo inútil
Aonde viessem pousar os passarinhos!


Um vôo de andorinha

Um voo de andorinha
Deixa no ar o risco de um frêmito...
Que é isto, coração? Fica aí, quietinho:
Chegou a idade de dormir!
Mas
Quem é que pode parar os caminhos?
E os rios cantando e correndo?
E as folhas ao vento? E os ninhos...
E a poesia...
A poesia como um seio nascendo...

Inscrição para uma lareira
A vida é um incêndio: nela
dançamos, salamandras mágicas.
Que importa restarem cinzas
se a chama foi bela e alta?
Em meio aos toros que desabam,
cantemos a canção das chamas!

Cantemos a canção da vida,
na própria luz consumida...

A vida

Mas se a vida é tão curta como dizes
por que é que me estás lendo até agora?

* Hoje, 30 de julho, Mário Quintana estaria completando 104 anos.


domingo, 25 de outubro de 2009

O DIA ABRIU SEU PÁRA-SOL BORDADO - Mário Quintana

O dia abriu seu pára-sol bordado
De nuvens e de verde romaria.
E estava até um fumo, que subia,
Mi-nu-ci-o-sa-men-te desenhado.

Depois surgiu, no céu azul arqueado, 
A Lua - a Lua! - em pleno meio-dia.
Na rua, um menininho que seguia
Parou, ficou a olhá-lo admirado...


Pus meus sapatos na janela alta,
Sobre o rebordo... Céu é que lhes falta
Pra suportarem a existência rude!


E eles sonham imóveis, deslumbrados,
Que são dois velhos barcos, encalhados
Sobre a margem tranquila de um açude...