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quarta-feira, 11 de julho de 2012

A CASA DO PASTOR - Hermann Hesse


Passar por essa bela casa desperta em mim uma áurea de saudade e de nostalgia. Saudade de silencio, calma e burguesia, nostalgia de camas confortáveis, bancos de jardim e olores de cozinha saborosa. Mais ainda, saudade de uma biblioteca, de tabaco e de velhos livros. (...) Para pessoas como eu, seria maravilhoso viver aqui e ser um pastor. Especialmente para alguém como eu.(...) Se fizesse tempo ruim, eu aqueceria intensamente a casa, e debruçado numa dessas lareiras azuis ou esverdeadas, de vez em quando, chegaria até a janela, balançando a cabeça comovido pelo tempo.Mas, pelo contrário, se o tempo fosse bom, eu permaneceria longamente no jardim, cortando e amarrando minhas videiras, ou chegaria até a janela escancarada e, de pé, ficaria olhando as montanhas cinzas e escuras retomarem sua cor rosada e brilhante. 
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Abreviando: nessa casa eu não seria  nenhum pastor senão o mesmo, inofensivo e instável peregrino de agora. Não seria nunca um padre, mas, ora um teólogo fantástico, ora um gourmet tremendamente preguiçoso perseguindo as garrafas de vinho e as jovens damas, ora umm poeta e um mímico, ora nostálgico com o pobre coração cheio de medos e amargura. (...) Dá no mesmo, se eu fosse padre aqui ou vagabundo na rua, é tudo igual com exceção de algumas poucas coisas com as quais eu me importo muito. É sentir que a vida palpita em mim, quer seja na ponta da língua ou na planta do pé, quer seja no prazer ou na tortura, que meu espírito seja vivaz, que possa transformar-se em inúmeras fantasias e formas, em pastor e em peregrino, em cozinheira e em assassino, em crianças e em animais, principalmente em pássaros e árvores também. Isso é muito importante, isso eu quero e preciso para a vida, e se um dia não puder ser mais assim e eu tiver que viver na chamada "realidade", então preferirei morrer.

                                        

* Ilustração: Pintura de Thomas Kinkade.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

ÁRVORES - Hermann Hesse


   As árvores sempre foram para mim os oradores mais convincentes. Eu as venero entre suas famílias e povos, as florestas e os bosques, mas, ainda mais as adoro quando estão a sós. Então são como os seres solitários, mas não como eremitas que por causa de alguma fraqueza se isolaram, mas como os grandes homens solitários: como Beethoven e Nietzsche. Em suas copas cicia o mundo, suas raízes jazem no infinito. Solitárias, elas não se perdem, senão com toda a força de seu ser procuram a única meta, preencher a sua própria lei desenvolvendo suas formas e se auto-representando. Não existe nada mais santo, mais exemplar do que uma bela e forte árvore. Quando uma árvore é cortada e seu ferimento mortal fica exposto ao sol, então é possível ler-se em seu toco, que ao mesmo tempo lhe serve como lápide, toda a sua história. (...) Quem sabe como falar-lhes, ouví-las, esse conhece a verdade. Elas não pregam ensinamentos e receitas, pregam isoladamente a primária lei da vida.
   Uma árvore diz: eu trago em mim uma luz, um pensamento, um âmago, pois eu sou a vida da vida eterna. (...) Vivo o segredo da minha semente até o fim, além disso nada mais me preocupa. Eu tenho a certeza de ter Deus em mim e que a minha missão é santa e dessa confiança vivo.
   Quando estamos tristes, sem mais nenhuma vontade de aturar a vida, então uma árvore pode falar conosco. Ela dirá: Calma, calma! Olhe-me! Viver não é fácil, mas nem tão difícil, pensamentos assim são criancice, cale, deixe que Deus fale em você. (...)
   Quem já aprendeu a ouvir uma árvore não deseja mais ser uma, não desejará ser nada mais do que é e isso é a pátria, a felicidade.
                                                  (Do livro Caminhada)

* Imagem: Olive Trees, de Vincent Van Gogh

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Palavras de Hermann Hesse

    
    Não creio ser um homem que saiba. Tenho sido sempre um homem que busca, mas já agora não busco mais nas estrelas e nos livros: começo a ouvir os ensinamentos que meu sangue murmura em mim.
   Não é agradável a minha história, não é suave e harmoniosa como as histórias inventadas; sabe a insensatez e a confusão, a loucura e sonho, como a vida de todos os homens que já não querem mais mentir a si mesmos.
   A vida de todo ser humano é um caminho em direção a si mesmo, a tentativa de um caminho, o seguir de um simples rastro. Homem algum chegou a ser completamente ele mesmo; mas todos aspiram a sê-lo, obscuramente alguns, outros mais claramente, cada qual como pode. Todos levam consigo, até o fim, viscosidades e casca de ovo de um mundo primitivo.
   Temos origens comuns. Todos proviemos do mesmo abismo. Mas cada um tende a seu próprio fim. Assim é que podemos entender-nos uns aos outros, mas somente a si mesmo pode cada um interpretar-se.