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sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Um pequeno texto de Lya Luft


   Eu quero entender melhor o mundo, entender melhor a vida. Essa é a primeira sensação que tenho de mim mesma, criança de três, quatro anos, que queria entender as coisas. Esse desejo, a curiosidade de entender, sobretudo, as relações humanas. Por isso, escrevo sobre gente tão neurótica, tão louca, porque, para mim, a minha arte sempre vai nascer do conflito.

sábado, 7 de maio de 2011

Um texto de Lya Luft


   Então, da sua alta janela escura, a mulher pôs-se a cantar. Primeiro num murmúrio, depois cada vez mais alto. Talvez outras janelas tenham se iluminado na casa e nas redondezas; a dela permaneceu escura. Cantava sem se importar com nada mais, cantava jorrando fios de música sobre as coisas todas, como tentáculos. E do seu canto foi brotando o mundo: dele nasceram árvores e os carros e as casas; os caminhos dos amantes; as grutas da noite, e o ventre do dia; a morte nascia dessa música; e a vida também.

(Do livro A Sentinela)

sábado, 27 de novembro de 2010

AUTO-RETRATO - Lya Luft


Alguém diz que sou bondosa: está tão enganado que dá pena.
Alguém diz que sou severa, e acho graça.
Não sou áspera nem amena: estou na vida como o jardineiro
se entrega em cada rosa:  corte, sangue, dor e aroma
para que a beleza fique na memória
quando a flor passa.

(Amar é lidar com os espinhos de quem ama por inteiro: com força, não com fraqueza.)

sexta-feira, 12 de março de 2010

Um poema de Lya Luft


Tenho medo da dor da tua ausência
que me queima por dentro.
E da ternura eu tenho medo, dessa
beleza das noites secretas
quando chegas
sempre como se fosse a única vez.

Tenho medo de que um dia queiras
cessar esse rio de águas ardentes
onde mais do que os corpos
tocam-se as almas,

anjos desatinados luzindo no breu.