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domingo, 20 de março de 2011

POÇO FUNDO - Gilberto Gil


Eu sou um poço fundo, um mundo de mistério.
Será que assim pareço pra você?
Pareço uma alemanha, montanha de mistério.
Será que assim mereço parecer?
Uma montanha negra, consagrada ao rito
Dos pactos de amor que faço em mim.
Pareço com uma pedra bruta, preta, de granito,
Mereço mesmo parecer assim?
Pergunto porque junto do meu leito toda noite
Há sempre uma florzinha de cheirar;
Pergunto porque junto com meu jeito meio afoito
Carrego uma ternura, um bem estar;
Pergunto porque dentro do meu peito, todo dia,
Se cria uma cantiga para o amor;
Pergunto porque, embora de aparência um tanto fria,
Nunca estou feia, nunca estou vazia;
Vivo sempre cheia de uma simpatia,
Nunca uma alemanha, sempre uma alegria,
E a minha manhã é manhã de calor.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

EU SOU A ÁRVORE - Chico Buarque de Hollanda


No tronco de uma árvore
A menina gravou seu nome cheia de prazer
A árvore em seu seio comovida
Pra menina uma flor deixou cair.

Eu sou a árvore
Comovida e triste
Tu és a menina que meu tronco usou.
Eu guardo sempre teu querido nome.
E tu?
Que fizeste da minha flor?

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

SONETO - Chico Buarque de Hollanda


Por que me descobriste no abandono
Com que tortura me arrancaste um beijo
Por que me incendiaste de desejo
Quando eu estava bem, morta de sono?

Com que mentira abriste meu segredo
De que romance antigo me roubaste
Com que raio de luz me iluminaste
Quando eu estava bem, morta de medo?

Por que não me deixaste adormecida
E me mostraste o mar - com que navio
E me deixaste só - com que saída?

Por que desceste ao meu porão sombrio
Com que direito me ensinaste a vida
Quando eu estava bem, morta de frio?

 * Imagem: Óleo de Pablo Picasso