Mostrando postagens com marcador Jorge Luís Borges. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jorge Luís Borges. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

SOU - Jorge Luís Borges


Sou o que sabe não ser menos vão
Que o vão observador que frente ao mundo
Vidro do espelho segue o mais agudo
Reflexo ou o corpo do irmão.
Sou, tácitos amigos, o que sabe
Que a única vingança ou o perdão
É o esquecimento. Um deus quis dar então
Ao ódio humano essa curiosa chave.
Sou o que, apesar de tão ilustres modos
De errar, não decifrou o labirinto
Singular e plural, árduo e distinto,
Do tempo, que é de um só e é de todos.
Sou o que é ninguém, o que não foi a espada
Na guerra. Um esquecimento, um eco, um nada.



*Imagem: Vladimir Queiroz Sejas.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Algumas palavras de Jorge Luís Borges


  • Um livro não deve exigir esforço; a felicidade não deve exigir esforço.
  • Emerson disse que um livro, quando está fechado, é uma coisa entre as coisas. Mas quando seu leitor o abre, então ocorre o fato estético, e esse fato estético pode não ser ou não deve ser exatamente o que o autor sentiu, mas algo novo, isto é, cada leitor é um criador - um colaborador, em todo caso, do texto. E os textos são, sobretudo, diferentes, não pelo modo como estão escritos, mas pelo modo como são lidos.
  • O êxtase de escrever não se mede pelas virtudes ou fraquezas da escritura. Toda obra humana é perecível, afirma Carlyle, mas sua execução não o é.
  • Fala-se do desaparecimento, ou da extinção do livro. Creio que isto é impossível. Dir-se-á: que diferença pode haver entre um livro e um jornal ou um disco? A diferença é que um jornal é lido para ser esquecido; um disco é ouvido, igualmente, para ser esquecido - é algo mecânico e, portanto, frívolo. O livro é lido para eternizar a memória.
  • Dos diversos instrumentos utilizados pelo homem, o mais espetacular é, sem dúvida, o livro. Os demais são extensões de seu corpo. O microscópio, o telescópio são extensões de sua visão; o telefone é a extensão de sua voz; em seguida, temos o arado e a espada, extensões de seu braço. O livro, porém, é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação.
  • Não apenas o escritor, mas todo homem deve se lembrar de que os fatos da vida são um instrumento. Todas as coisas que lhe são dadas têm um sentido, ainda mais no caso do artista: tudo o que lhe acontece - inclusive humilhações, mágoas e infortúnios - funciona como argila, como material que deve ser aproveitado para sua arte. Lembrei isso num poema, onde falo do antigo alimento dos heróis: a humilhação, a infelicidade, a contradição. Essas coisas nos foram dadas para serem transformadas: fazer com que  as circunstâncias miseráveis de nossa vida se tornem coisas eternas ou em vias de eternidade.
  • Quando São Paulo disse "morro a cada dia", não era esta uma expressão patética. A verdade é que morremos a cada dia e nascemos a cada dia. Estamos permanentemente nascendo e morrendo. Por isso o problema do tempo nos afeta mais que os outros problemas metafísicos. Porque os outros são abstratos. O do tempo é nosso problema. Quem sou eu? Quem é cada um de nós? Quem somos? Talvez o saibamos algum dia. Talvez, não. Nesse meio tempo, entretanto, como dizia Santo Agostinho, minha alma arde, porque quero saber.

domingo, 17 de abril de 2011

OS MEUS LIVROS - Jorge Luis Borges


Os meus livros (que não sabem que existo)
São uma parte de mim, como este rosto
De têmporas e olhos já cinzentos
Que em vão vou procurando nos espelhos
E que percorro com a minha mão côncava.
Não sem alguma lógica amargura
Entendo que as palavras essenciais,
As que me exprimem, estarão nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevo.
Mais vale assim. As vozes desses mortos
Dir-me-ão para sempre.
                                                * (In A rosa profunda)

sexta-feira, 28 de maio de 2010

O DRAGÃO - Jorge Luís Borges


   O dragão governa as montanhas, vincula-se à geomancia, mora perto dos sepulcros, está associado ao culto de Confúcio, é o Netuno dos mares e aparece em terra firme. Os reis dos dragões do mar habitam palácios resplandecentes sob as águas e se alimentam de opalas e de pérolas. Há cinco desses reis; o principal está no centro, os outros quatro correspondem aos pontos cardeais. Têm uma légua de comprimento; ao mudar de posição abalam as montanhas. São revestidos de uma armadura de escamas amarelas. Abaixo do focinho têm uma barba; as pernas e a cauda são peludas. A testa se projeta sobre os olhos chamejantes, as orelhas são pequenas e cheias, a boca sempre aberta, a língua comprida e os dentes afiados. O hálito ferve os peixes, as exalações do corpo os fazem assar. Quando sobe à superfície dos oceanos produz redemoinhos e tufões; quando voa pelos ares causa tormentas que destelham as casas das cidades e inundam os campos. São imortais e podem comunicar-se entre si apesar das distâncias que os separam e sem necessidade de palavras. No terceiro mês fazem seu informe anual aos céus superiores.

                              (De O livro dos seres imaginários)