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segunda-feira, 24 de setembro de 2012

ULISSES - Clarice Lispector


   Era uma vez... Era uma vez: eu!
   Mas aposto que você não sabe quem sou eu.
   Prepare-se para uma surpresa que você nem adivinha.
  Sabe quem sou eu? Sou um cachorro chamado Ulisses e minha dona é Clarice.
   Eu fico latindo para Clarice e ela - que entende o significado de meus latidos - escreve o que eu lhe conto. Por exemplo, eu fiz uma viagem para o quintal de outra casa e contei a Clarice uma história bem latida, resultado de uma observação minha sobre essa casa.
    Antes de tudo, vou me apresentar melhor.
   Dizem que sou bonito e sabido. Bonito parece que sou. Tenho um pêlo castanho, cor de guaraná. Mas, sobretudo, tenho olhos que todos admiram: são dourados.
   Minha dona não quis cortar o meu rabo porque acha que cortar seria contra a natureza.
    Dizem assim: "Ulisses tem um olhar de gente".
   Gosto muito de me deitar de costas para coçarem minha barriga.
    Mas, sabido, sou apenas na hora de latir palavras.
   Sou um pouco malcriado, não obedeço sempre, gosto de fazer o que quero.
    Fora disso, sou um cachorro quase normal. Ah, esqueci de dizer que sou um cachorro mágico: adivinho tudo pelo cheiro. Isto se chama ter faro. No quintal onde estive hospedado cheirei tudo, figueira, galo, galinha etc.
   Se você chamar: "Ulisses, vem cá" - eu vou correndo e latindo para o seu lado, porque gosto muito de criança, e só mordo quando me batem.
   Pois não é que vou latir uma história que até parece de mentira  e até parece de verdade? Só é verdade no mundo de quem gosta de inventar, como você e eu.

   (Da obra Quase de verdade)

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Um texto de Clarice Lispector


   Eu só uso o raciocínio como anestésico. Mas para a vida sou diretamente uma perene promessa de entendimento do meu mundo submerso. Agora que existem computadores para quase todo o tipo de procura de soluções intelectuais - volto-me então para o meu rico nada interior. E grito: eu sinto, eu sofro, eu me alegro, eu me comovo. Só o meu enigma me interessa. Mais que tudo, me busco no meu grande vazio.
   Procuro me manter isolada contra a agonia de viver dos outros, e essa agonia que lhes parece um jogo de vida e morte mascara uma outra realidade, tão extraordinária essa verdade que os outros cairiam de espanto diante dela, como num escândalo. Enquanto isso, ora estudam, ora trabalham, ora amam, ora crescem, ora se afanam, ora se alegram, ora se entristecem. A vida com letra maiúscula nada pode me dar porque vou confessar que também eu devo ter entrado por um beco sem saída como os outros. Porque noto em mim não um bocado de fatos, e sim, procuro quase tragicamente ser. É uma questão de sobrevivência assim como a de comer carne humana quando não há alimento. Luto não contra os que compram e vendem apartamentos e carros e procuram se casar e ter filhos, mas luto com extrema ansiedade por uma novidade de espírito. Cada vez que me sinto quase um pouco iluminada vejo que estou tendo uma novidade de espírito.
   Minha vida é um reflexo deformado assim como se deforma num lago ondulante e instável o reflexo de um rosto. Imprecisão trêmula. Como o que acontece com a água quando se mergulha a mão na água. Sou um palidíssimo reflexo de erudição. Minha receptividade se afina registrando sem parar as concepções de outros, refletindo no meu espelho os matizes sutis das distinções entre as coisas da vida. Eu que sou um resultado do verdadeiro milagre dos instintos. Eu sou um terreno pantanoso. Em mim nasce musgo molhado cobrindo pedras escorregadias. Pântano com seus sufocantes miasmas intoleravelmente doces. Pântano borbulhante.

(Extraído de Um sopro de vida)

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Um pequeno texto de Clarice Lispector II


   Esta é uma declaração de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e reagir às vezes com um pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa do superficialismo.
   Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Às vezes se assusta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la - como gostava de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas  às vezes lentamente, às vezes a galope.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Um pequeno texto de Clarice Lispector


     Esta é uma declaração de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e reagir às vezes com um pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa do superficialismo.
     Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Às vezes se assusta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la - como gostava de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes a galope.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Brevidades de Clarice Lispector


O quarto secreto, teu quarto
       Flores envenenadas na jarra. Roxas, azuis, encarnadas, atapetam o ar. Que riqueza de hospital. Nunca vi mais belas. Este então é o teu segredo. Teu segredo é tão parecido comigo que nada me revela além do que sei. E sei tão pouco como se o teu enigma fosse eu. Assim como tu és o meu.

Escrever, prolongar o tempo
       Não posso escrever enquanto estou ansiosa ou espero soluções porque em tais períodos faço tudo para que as horas passem; e escrever é prolongar o tempo, é dividí-lo em partículas de segundos, dando a cada uma delas uma vida insubstituível.

Verão na sala
       Com o leque ela pensa alguma coisa. Ela pensa o leque e com o leque se abana. E com o leque fecha de súbito o pensamento num estalido, vazia, sorridente, rígida, ausente. O leque distraído e aberto no peito. "A vida é mesmo engraçada", concorda ela como visita que é recebida na sala de visitas. Mas num alvoroço controlado, eis que se abana de súbito com mil asas de pardal.

Primavera não sentimental
       Sei que comi a pêra e desperdicei fora a metade - nunca tenho piedade na primavera. Bebemos depois água na fonte, e não enxuguei a boca. Andávamos calados, insolentes. Quanto à piscina, sei que fiquei horas na piscina. Olha a piscina - era assim que eu via a piscina, demonstrando-a com olhos tranquilos. Tranquila, sem nenhuma piedade.

Como se chama
       Se recebo um presente dado com carinho por pessoa de quem não gosto - como se chama o que sinto? Uma pessoa de quem não se gosta mais e que não gosta mais da gente - como se chama essa mágoa e esse rancor? Estar ocupada, e de repente parar por ter sido tomada por uma desocupação beata, milagrosa, sorridente e idiota - como se chama o que se sentiu? O único modo de chamar é perguntar: como se chama? Até hoje só consegui nomear com a própria pergunta. Qual é o nome? e este é o nome.

                                       (Do livro Para não esquecer)

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

De UM SOPRO DE VIDA - Clarice Lispector

Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços o meu pecado de pensar.