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quarta-feira, 11 de julho de 2012

A DOR QUE DÓI MAIS - Martha Medeiros


   Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé doem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e  pedra no rim. Mas o que mais dói é saudade.
   Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, quando se tinha mais audácia e menos cabelos brancos. Doem essas saudades todas.
   Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Voce podia ir para o aeroporto e ele para o dentista, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.
   Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno. Não saber mais se ela continua pintando o cabelo de caju. Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. Não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ele tem comido frango assado, se ela tem assistido às aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua pescando, se ela continua lhe amando.
   Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.
   Saudade é não querer saber. Não querer saber se ele está com outra, se ela está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama e ainda assim doer.
  

sábado, 14 de janeiro de 2012

KIT FELICIDADE - Martha Medeiros


   Por muito tempo acreditei que a fórmula da felicidade estava no triângulo amor-saúde-dinheiro. Acredito, ainda, que ter o coração preenchido, o corpo funcionando 100% e um saldo decente no banco alivia à beça as dores do mundo. Se você não está só, não está doente e não está duro, vai se angustiar por quê?
   Você não está só, não está doente e não está duro, porém jamais conseguiu ir ao cinema sozinho, ou viajar sozinho, ou dar uma caminhada sozinho. Você não consegue escolher entre um casaco preto e um marrom sem consultar uma segunda opinião. Você nunca aceitou um emprego sem antes saber o que a sua turma pensava a respeito, nunca tomou uma decisão que fosse desaconselhada pelos parentes, nunca abriu um champanhe para si mesmo.
   Você não está só, não está doente e não está duro, mas não acredita que tenha condições de realizar um trabalho que nunca fez antes. Tem certeza de que é a pessoa mais deslocada da festa e que está vestido inadequadamente. Não dá palpite na conversa dos outros porque sabe que vai dizer besteira. Ri das piadas que não entende para parecer inteligente, mesmo que a piada não tenha sentido algum. É ph.D em Literatura, mas não ousa mostrar seus versos. Tem o corpo malhado, mas anda encurvado na rua. Bate com o joelho na quina da mesa e, em vez de soltar um palavrão, pede desculpas para o móvel.
   Você não está só, não esta doente e não está duro, mas leva a ferro e fogo tudo o que lhe dizem. Se alguém comenta que seu cabelo está mais grisalho, você rebate dizendo que a barriga do outro está mais saliente. Se errou o caminho na estrada, pragueja em vez de aproveitar a bela paisagem que se descortinou. Se alguém desmarca um compromisso em cima da hora, você corta relações. Se algo sai errado, a culpa nunca é sua. Se exagera numa reação, é incapaz de rir de si próprio e relevar o incidente. Um congestioamento estraga o seu dia.
   Amor, saúde e dinheiro persistem como a tríade dos sonhos, mas o século 21 está colocando na prateleira um kit suplementar: independência, autoestima e bom humor. Adquira-o. A felicidade não depende só do cumprimento de metas vitais, mas também de atitudes mundanas.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

A MORTE DEVAGAR - Martha Medeiros


Morre lentamente quem não troca de ideias, não troca de discurso, evita as próprias contradições.
Morre lentamente quem vira escravo do hábito, repetindo todos os dias o mesmo trajeto e as mesmas compras no supermercado. Quem não troca de marca, não arrisca vestir uma cor nova, não dá papo para quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru e seu parceiros diário. Muitos não podem comprar um livro ou uma entrada de cinema, mas muitos podem e ainda assim alienam-se diante de um tubo de imagens que traz informação e entretenimento, mas que não deveria, mesmo  com apenas 14 polegadas, ocupar tanto espaço em uma vida.
Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o preto no branco e os pingos nos is a um turbilhão de emoções indomáveis, justamente as que resgatam brilho nos olhos, sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho, quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não acha graça de si mesmo.
Morre lentamente quem destrói seu amor próprio. Pode ser depressão, que é doença séria e requer ajuda profissional. Então fenece a cada dia quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem não trabalha e quem não estuda, e na maioria das vezes isso não é opção e, sim, destino: então um governo omisso pode matar, lentamente, uma boa parcela da população.
Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da chuva incessante, desistindo de um projeto antes de iniciá-lo, não perguntando sobre um assunto que desconhece, e não respondendo quando lhe indagam o que sabe. Morre muita gente lentamente, e esta é a morte mais ingrata e traiçoeira, pois quando ela se aproxima de verdade, aí já estamos muito destreinados para percorrer o pouco tempo restante.
Que amanhã, portanto, demore muito para ser o nosso dia. Já que não podemos evitar um final repentino, que ao menos evitemos a morte em suaves prestações, lembrando sempre que estar vivo exige um esforço bem maior do que simplesmente respirar.


* Extraído do livro Caiu na Rede, de Cora Rónai (org.).

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Mais três poemas de Martha Medeiros


foram tantas noites de insônia
roubando os poucos anos que tinha
perdi a conta dos prantos
contei carneiros e os dias
e os dias nunca passavam
ou passavam e eu não via
ficava um aperto no peito
nem tudo entendia como era
mas que era bonito eu sabia

***

tristeza é quando chove
quando está calor demais
quando o corpo dói
e os olhos pesam
tristeza é quando se dorme pouco
quando a voz sai fraca
quando as palavras cessam
e o corpo desobedece
tristeza é quando não se acha graça
quando não se sente fome
quando qualquer bobagem
nos faz chorar
tristeza é quando parece
que não vai acabar

***

não espero de você o que já me foi dado
nem você conseguiria porque não é assim
tudo tão cronometrado

eu não espero que você me proteja
depois de todos os medos que eu disse não ter
você não teria como saber

não espero de você um abraço
que já foi desfeito faz tempo
você não faz ideia quanto

eu não espero de você
nem mais um dia de lamento
ne um momento como a gente já teve

seja breve, não me escreva
se sobrar algum afeto
seja discreto e me esqueça

(Do livro Poesia Reunida, de Martha Medeiros)

* Imagem: Obra do artista sueco Ola Billgren.

sábado, 27 de novembro de 2010

PARA QUE SERVE UM AMIGO? - Martha Medeiros

      
     Para que serve um amigo? Para rachar a gasolina, emprestar a prancha, recomendar um disco, dar carona pra festa, passar cola, caminhar no shopping, segurar a barra. Todas as alternativas estão corretas, porém isso não basta para guardar um amigo do lado esquerdo do peito. Milan Kundera, escritor tcheco, escreveu em seu último livro, A identidade, que a amizade é indispensável para o bom funcionamento da memória e para a integridade do próprio eu. Chama os amigos de testemunhas do passado e diz que eles são nosso espelho, que através deles podemos nos olhar. Vai além: diz que toda amizade é uma aliança contra a adversidade, aliança sem a qual o ser humano ficaria desarmado contra seus inimigos. Verdade verdadeira. Amigos recentes custam a perceber essa aliança, não valorizam ainda o que está sendo construído. São amizades não testadas pelo tempo, não se sabe se enfrentarão com solidez as tempestades ou se serão varridos numa chuva de verão. Veremos. Um amigo não racha apenas a gasolina: racha lembranças, crises de choro, experiências. Racha a culpa, racha segredos. Um amigo não empresta apenas a prancha. Empresta o verbo, empresta o ombro, empresta o tempo, empresta o calor e a jaqueta. Um amigo não recomenda apenas um disco. Recomenda cautela, recomenda um emprego, recomenda um país. Um amigo não dá carona apenas pra festa. Te leva pro mundo dele, e topa conhecer o teu. Um amigo não passa apenas cola. Passa contigo um aperto, passa junto o reveillon. Um amigo não caminha apenas no shopping.  Anda em silêncio na dor, entra contigo em campo, sai do fracasso ao teu lado. Um amigo não segura a barra apenas. Segura a mão, a ausência, segura uma confissão, segura o tranco, o palavrão, segura o elevador. Duas dúzias de amigos assim ninguém tem. Se tiver um, amém.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Três poemas de Martha Medeiros


não morro de amores
por pessoas sem mistério
quando se é muito transparente
muito risonho e educado
é raro ser levado a sério
prefiro os mais silenciosos
os que abrem a boca de menos
os mais serenos e mais perigosos
aqueles que ninguém define
e que sempre analisam os fatos
por um novo enfoque
prefiro os que têm estoque
aos que deixam tudo à mostra na vitrine

* * *
você bem que podia ter surgido na minha vida
vinte anos atrás, quando eu ainda tinha planos
quinze anos atrás, quando eu estava me formando
onze anos atrás, quando eu morava sozinha
dez anos atrás, quando eu ainda era solteira
seis anos atrás, quando eu ainda estava tentando
dois meses atrás, quando sobrava alguma força
ontem à noite eu ainda estava te esperando

* * *

é quarto-crescente e já venero a lua cheia
o disco nem foi lançado e já sei a letra de cor
o sol ainda não nasceu e já estou estendida na areia
fuzilem-me, não há nada em que eu não creia

terça-feira, 29 de junho de 2010

ADJETIVOS E SUBSTANTIVOS - Martha Medeiros


   O escritor português José Luís Peixoto disse certa vez uma frase que é uma lição valiosa para quem quer escrever bem: O substantivo é eterno, o adjetivo é acessório. Não sei se esta frase é originalmente dele ou se ele apenas a reproduziu numa entrevista, mas seja quem for o autor, obrigada pelo toque, não custa nada nos lembrar.
   Ninguém pode prescindir dos adjetivos, mas seu uso excessivo facilita demais a vida do leitor. Ele não precisa imaginar nada, está tudo ali descrito: se o pôr-do-sol é alaranjado ou púrpura, se os olhos da mocinha são melancólicos ou espertos, se os sentimentos são vigorosos ou confusos, se a cidade é opressiva ou tediosa, se o assassino está nervoso ou aliviado. Entrega-se tudo de mão beijada, vemos o que o autor vê, mas não sentimos o que o personagem sente.
   Assim na literatura, assim na vida. Recheamos nossos papos de adjetivos, despejamos um monte deles para fazer com que os outros entendam como nos sentimos: fracos, estimulados, preguiçosos, sonolentos, excitados. Adjetivamos nosso estado de espírito e economizamos justamente as palavras que nos traduziriam: medo, desespero, insegurança, êxtase. É mais fácil descrever o que nos acontece do que fazer com que o outro perceba. O adjetivo não dá trabalho a ninguém, nem a quem o usa e nem a quem o recebe. É um adendo, um enfeite, e como tal, requer não abusar, para evitar peruices literárias.
   O substantivo é o corpo, o adjetivo é o brinco. Importa o que o nosso corpo diz, como ele se movimenta, como reage ao toque, os sentimentos que leva dentro, como digere a vida, sua serventia como armadura ou objeto de sedução. O adjetivo é apenas o que fica aparente.
   E assim tudo. O substantivo é a alma, o adjetivo é a lágrima. O substantivo é o amor, o adjetivo é o beijo. O substantivo é o crime, o adjetivo é o sangue. Ambos complementares, porém o substantivo é o conteúdo, o adjetivo é apenas o papel de embrulho.