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sábado, 22 de setembro de 2012

SONETO - Mário de Andrade


Aceitarás o amor como eu encaro?
... Azul bem leve, um nimbo, suavemente
Guarda-te a imagem, como um anteparo
Contra estes móveis de banal presente.

Tudo o que há de melhor e de mais raro
Vive em teu corpo nu de adolescente,
A perna assim jogada e o braço, o claro
Olhar preso no meu, perdidamente.

Não exijas mais nada. Não desejo
Também mais nada, só te olhar, enquanto
A realidade é simples, e isto apenas.

Que grandezsa... a evasão total do pejo
Que nasce das imperfeições. O encanto
Que nasce das adorações serenas.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

QUARENTA ANOS - Mário de Andrade

A vida é para mim, está se vendo,
Uma felicidade sem repouso;
Eu nem sei mais se gozo, pois que o gozo
Só pode ser medido em se sofrendo.

Bem sei que tudo é engano, mas sabendo
Disso, persisto em me enganar... Eu ouso
Dizer que a vida foi o bem precioso
Que eu adorei. Foi um pecado... Horrendo

Seria, agora que a velhice avança,
Que me sinto completo e além da sorte,
Me agarrar a esta vida ferventida.

Vou fazer do meu fim minha esperança,
Oh, sono, vem!... Que eu quero amar a morte
Com o mesmo engano com que amei a vida.