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sábado, 24 de março de 2012

OS SETE PECADOS CAPITAIS - Eduardo Galeano


   De joelhos no confessionário, um arrependido admitiu que era culpado de avareza, gula, luxúria, preguiça, inveja, soberba e ira:
   Jamais me confessei. Eu não queria que vocês, os senhores padres, gozassem mais que eu com meus pecados, e por avareza os guardei para mim.
   Gula? Desde a primeira vez que a vi, confesso que o canibalismo não me pareceu tão mau assim.
   É luxúria isso de entrar em alguém e perder-se lá dentro e nunca mais sair?
   Aquela mulher era a única coisa no mundo que não me dava preguiça.
   Eu sentia inveja. Inveja de mim. Confesso.
   E confesso que depois cometi a soberba de acreditar que ela era eu.
   E quis romper esse espelho, louco de ira, quando não me vi.

                                    (Do livro Bocas do Tempo)


*Imagem: Sete Pecados Mortais, de Hieronymus Bosch.

domingo, 3 de julho de 2011

OS NINGUÉNS - Eduardo Galeano


   As pulgas sonham com comprar um cão, e os ninguéns com deixar a pobreza, que em algum dia mágico a sorte chova de repente, que chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não chove ontem, nem ontem, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.
   Os ninguéns: os filhos de ninguém, os donos do nada.
   Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos:
   Que não são, embora sejam.
   Que não falam idiomas, falam dialetos.
   Que não praticam religiões, praticam superstições.
   Que não fazem arte, fazem artesanato.
   Que não são seres humanos, são recursos humanos.
   Que não têm cultura, e sim folclore.
   Que não têm cara, têm braços.
   Que não têm nome, têm número.
   Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.
   Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.

                                         (De O livro dos abraços)

domingo, 17 de abril de 2011

TEOLOGIA/2 - Eduardo Galeano


     O deus dos cristãos, Deus da minha infância, não faz amor. Talvez o único deus que nunca fez amor, entre todos os deuses de todas as religiões da história humana. Cada vez que penso nisso, sinto pena Dele. E então o perdoo por ter sido meu superpai castigador, chefe de polícia do universo, e penso que afinal Deus também foi meu amigo naqueles velhos tempos, quando eu acreditava Nele e acreditava que Ele acreditava em mim. Então preparo a orelha, nas horas dos rumores mágicos, entre o pôr-do-sol e o nascer subir da noite, e acho que escuto suas melancólicas confidências.

* (Em O livro dos abraços)

terça-feira, 29 de março de 2011

CAUSOS/2 - Eduardo Galeano


   E dizem por aí que ali havia um tesouro, escondido na casa de um velhinho todo mequetrefe.
   Uma vez por mês, o velhinho, que estava nas últimas, se levantava da cama e ia receber a pensão.
   Aproveitando a ausência, alguns ladrões, vindos de Montevidéu, invadiram a casa.
   Os ladrões buscaram e buscaram o tesouro em cada canto. A única coisa que encontraram foi um baú de madeira, coberto de trapos, num canto do porão. O tremendo cadeado que o defendia resistiu, invicto, ao ataque das gazuas.
   E assim, levaram o baú. Quando finalmente conseguiram abrí-lo, já longe dali, descobriram que o baú estava cheio de cartas. Eram as cartas de amor que o velhinho tinha recebido ao longo de sua longa vida.
   Os ladrões iam queimar as cartas. Discutiram. Finalmente, decidiram devolvê-las. Uma por uma. Uma por semana.
   Desde então, ao meio-dia de cada segunda-feira, o velhinho se sentava no alto da colina. E lá esperava que aparecesse o carteiro no caminho. Mal via o cavalo, gordo de alforjes, entre as árvores, o velhinho desandava a correr. O carteiro, que já sabia, trazia sua carta nas mãos.
   E até São Pedro escutava as batidas daquele coração enlouquecido de alegria por receber palavras de mulher.
                                      (De O livro dos abraços)

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

AS FLORES - Eduardo Galeano


   O escritor brasileiro Nelson Rodrigues estava condenado à solidão. Tinha cara de sapo e língua de serpente, e a seu prestígio de feio e sua fama de venenoso somava-se a notoriedade de seu contagioso azar: as pessoas ao seu redor morriam de tiro, miséria ou infelicidade fatal.
   Certo dia, Nelson conheceu Eleonora. Naquele dia, dia do descobrimento, quando pela primeira vez viu aquela mulher, uma violenta alegria atropelou-o e deixou-o abobado. Então, quis dizer alguma de suas frases brilhantes, mas as pernas bambearam e a língua se enrolou e não conseguiu outra coisa a não ser gaguejar ruidinhos.
   Bombardeou-a de flores. Mandava flores para o apartamento dela, no alto de um edifício do Rio de Janeiro. A cada dia mandava um grande ramo de flores, flores sempre diferentes, sem repetir jamais as cores ou aromas, e ficava esperando lá embaixo: lá de baixo via a varanda de Eleonora, e da varanda ela atirava as flores na rua, todos os dias, e os automóveis as esmagavam.
   E foi assim durante cinquenta dias. Até que um dia, um meio-dia, as flores que Nelson enviou não caíram na rua e não foram pisadas pelos automóveis.
   Naquele meio-dia, ele subiu até o último andar, apertou a campainha e a porta se abriu.

                                (De O livro dos abraços)